* Por Filipe Küster

Com mais de seis meses de presidência, Donald Trump vem cumprindo parte de suas promessas eleitorais, chocando a comunidade internacional com decisões polêmicas como retirar-se da Parceria do Transpacífico logo nos primeiros dias de mandato, ameaçar contundentemente rasgar o tratado do NAFTA com México e Canadá e, mais recentemente, anunciar a retirada formal dos EUA do Acordo do clima de Paris, ficando isolado com Nicarágua e Síria no rol de países não signatários.

Enquanto isso, no Brasil, um governo instável que tem sofrido inúmeros ricochetes por conta dos sabidos cenários que levaram a economia à derrocada atual, com taxas de desemprego crescentes, PIB encolhendo ano a ano e uma produção econômica pífia diante de países de porte similar na própria América Latina, a exemplo de Chile e México. O atual presidente Michel Temer tem tentado uma aproximação com o governo de Trump, no sentido de demonstrar que o Brasil não está contra as visões retóricas de protecionismo econômico e que quer participar, e não atrapalhar, dos planos megalomaníacos estadunidenses.

Mesmo que provavelmente Donald Trump conheça pouco do presidente brasileiro, nós, em terras tropicais, precisamos efetivamente nos preocupar com a nova orientação econômica do governo americano acerca de temas como cadeias globais de valor, balança comercial desequilibrada, preços de commodities e tratados bilaterais? Antes de adentrar ao tema, é preciso fazer um breve retrospecto das características principais da nova matriz econômica de Trump para compreender efetivamente do que se trata.

Primeiramente, vale dizer que Trump propõe um sistema de “make America great again” ao ressignificar a maneira de realizar trocas comerciais, mudando o foco do neoliberalismo econômico, em que a globalização e o comércio internacional desenfreado passam a dar lugar à valorização da produção nacional em território americano, a fim de justificar a retórica de geração de riqueza em ambiente doméstico. Este protecionismo econômico do qual tem se falado é um dos pilares que embasam o neopopulismo norte americano no sentido de justificar a própria campanha eleitoral, que arrecadou uma votação voltada à mudança de paradigma de um Estados Unidos protagonista no cenário internacional, seja do ponto de vista econômico como geopolítico, para um novo Estados Unidos mais centrado em gerar riqueza para si próprio, deixando de lado parcerias comerciais que desfavoreceram a economia doméstica por longos anos – mas que igualmente foram relevantes para equilibrar os pesos e contrapesos do não tão justo comércio internacional.

Estes componentes da nova matriz de Trump são relativamente fáceis de compreender: sobretaxar importações que desequilibram a balança comercial (fazendo jus ao ditado “deficit is the devil”, ou “déficit é o diabo”) a fim de justificar a predominância de manufaturas nacionais sobre as importadas, livrar-se de acordos comerciais inócuos e desvantajosos aos Estados Unidos, sem medo da represália diplomática que isso possa causar e desvalorizar os mecanismos internacionais de negociação, como a OMC e a ONU.

Feitas tais considerações, a pergunta que nos resta é: como tais medidas podem efetivamente afetar a economia do Brasil? Devemos nos preocupar com as medidas protecionistas de Trump? Muito embora tais perguntas sejam difíceis de serem respondidas com efetividade, a primeira resposta oriunda de um compilado de opiniões de especialistas da área é: o Brasil não está na primeira mira dos Estados Unidos. Parte disso se deve ao próprio não protagonismo econômico da economia brasileira dos últimos anos, que passou de um grande player internacional para ser secundário por conta de questões competitivas, sendo substituído no cenário latino americano por México, Peru e Chile.

No cenário internacional, o Brasil ainda continua sendo um “peixe pequeno” se comparado com a China no que diz respeito ao fornecimento de aço, por exemplo –  tema este que interessa diretamente aos Estados Unidos (neste caso a China detém uma produção anual de 79 bilhões de toneladas contra 3 bilhões de toneladas do Brasil) e que tem causado arrepios em terras chinesas sobre as medidas protecionistas já instaladas por Trump no sentido de mitigar a concorrência desleal nas importações americanas. Por óbvio, a invocação da Seção 232 do Trade Expansion Act dos Estados Unidos, que permite ao Departamento de Comércio a determinar o impacto de importação de produtos na segurança nacional, podem redundar em investigações de dumping dos produtos chineses e brasileiros, verificando a sua viabilidade e possivelmente sobretaxando as importações. Se assim for concluído que estas causam concorrência desleal nos Estados Unidos, o Brasil pode sim sofrer as consequências na matriz do aço, que é tão importante para o país.

Embora os Estados Unidos sejam o segundo parceiro comercial do Brasil, o que parece é que os efeitos da política Trump tendem a tocá-lo no contexto do ripple effect (efeito ricochete), principalmente no que diz respeito ao possível aumento da taxa de juros do FED (Federal Reserve Bank) e que pode interromper a queda de taxa de juros da Selic, puxando a nossa ínfima recuperação ainda mais para baixo.

Outro ponto que seguramente afetará o Brasil é a recolocação dos acordos multilaterais quebrados pelos Estados Unidos, que vão exigir uma política diplomática mais ativa por nossa parte, cacife este que hoje não dispomos exatamente por conta da instabilidade política e sem uma matriz de relações exteriores definida. Se o Brasil demorar para se reposicionar nesta nova ordem mundial, em que acordos bilaterais provavelmente terão mais força do que os multilaterais, corremos o risco de ficar ainda mais para trás, perdendo oportunidades de negociação com parceiros regionais importantes como Chile e México – e principalmente com os parceiros asiáticos – e caso o acordo do Mercosul com a União Europeia de fato não vingue, o bloco pode perder ainda mais força por conta do enfraquecimento do bloco europeu.

É por isso que o Brasil deve se preocupar primeiramente com a sua condução diplomática com os parceiros – e não parceiros – e propor acordos comerciais bilaterais que compensem a possível lacuna com os Estados Unidos, mas sabemos que com o cenário doméstico atual, em que o impasse político demorará a ser resolvido, sofreremos pelo tempo de resposta, que provavelmente iniciará apenas em 2019 com o novo presidente, e com a recolocação de políticas econômicas internacionais. A boa notícia é que, mesmo não estando na primeira mira, o Brasil depende quase que de si próprio para vencer este desafio global.

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Filipe Küster